O que é que uma garrafa de absinto, uma tarte de amêndoa, um perfil no Orkut, dois Wraps de frango [um recheado por cada um dos deliciosos molhos, tão nutritivamente confeccionados nas super higiénicas instalações do McDonalds] e um esquilo de plástico têm em comum? Esperemos que nada pois esta infindável lista de items seria dificilmente enfiada no ânus de qualquer indivíduo, mesmos aqueles cujo elasticidade do primeiro esfincter e o controlo simpático do segundo o permitissem com alguma facilidade. No entanto todos estes artefactos possuem em comum o facto de serem, aos olhos dos protagonistas da seguinte parábola [baseada em factos verídicos, ou simplesmente transposta de factos verídicos e denominada de parábola porque até acho essa palavra engraçada] um valor idêntico, ou mesmo superior, ao da sua própria honra. Se o leitor achou esta revelação no mínimo caricata, peço-lhe que atente nas seguintes narrações e tente perceber que de caricato estas nada possuem, pois o orgulho humano quando ferido, causa uma dor muito superior a qualquer corte com lâminas de barbear, facto comum nos dias que correm, com alta probabilidade de ocorrência em carrascos de mamíferos de baixo porte, ou mesmo à dor causada pelo seemingly impossible fact já referido de introduzir duas garrafas de absinto, dois wraps de frango [ainda quentinhos e com o molhinho a escaldar], um esquilo de polietileno, uma tarte de amêndoa e um perfil do Orkut pelo ânus acima. É uma dor que dilacera o espírito e que está neste momento a pairar, qual abutre prestes a abater-se sobre a putrefacta carcaça, sobre três das nossas personagens.
De Iuri já muito foi dito, e muito mais ainda haverá, pois este jovem é um poço infindável de imaginação e não cessa de nos surpreender a cada momento com momentos mágicos que nos fazem questionar variadas vezes a sua humanidade. De João muito mais há ainda a referir e com certeza merecerá um dia a sua própria crónica, mas já sabemos que adora sandes de atum e que possui uma secreta e ardente paixão por Simon, o simpático e amistoso esquilo tocador de baixo, cujo nome já muito foi invocado mas ainda não foi explorado, tudo a seu tempo. Apresentemos pois a terceira personagem desta narrativa e arranjemos-lhe um nome digno. É o mais próximo que Simon tem de um parente humano, dentro das possibilidades de ligação de sangue entre um humano e um brinde do Happy Meal, e nutre por ele um carinho quase fraternal, muitas vezes possessivo, sendo a grande barreira entre Ele, João e o seu amor proibido. João sabe-o e durante meses tentou de várias formas apoderar-se de Simon. Mas o que ele não sabia é que ela, a quem chamaremos daqui em diante de Mondim, é facilmente subjugável pelo apelo à honra e ao orgulho, facto que partilha em comum com Iuri, cuja humanidade fica comprovada nesta fraqueza que de humano tem tudo.
Tudo começou quando, sob um céu cinzento, Iuri pegou no Cubo. O que o Cubo é realmente, ninguém sabe, mas como simples narrador de acontecimentos posso garantir que é uma fonte de tentação, um objecto com o negro poder e a tenebrosa capacidade de prender uma pessoa num universo próprio, isolando-a da realidade, definhando-a na sua mediocridade. Iuri era o portador do Cubo. E João temeu pelo seu amigo. Durante meses vários habitantes da sala foram cedendo à tentação e com Iuri consumiram o Cubo. João, até ele, do alto do seu trono de sabedoria e magnificiência, desceu à condição de manipulável humano e deixou-se controlar pelo Cubo durante uns tempos, até que, ao acordar desse negro pesadelo, tomou a decisão de acabar com ele e impedir que os novos membros da irmandade da sala 118 caíssem nesse pecado. João degladeou-se com Iuri, mas o Cubo tinha sobre ele um efeito tão poderoso, que simples palavras ou mesmo actos, de nada passavam para além de meros arranhões na couraça da sua indiferença. Mas a esperança, quando ninguém espera, ressurge e uma pessoa contaminada e cuja mente se encontra debilitada por mentiras e falsas adorações é facilmente manipulada por atracções primitivas. João sabia-o e disse as palavras mágicas: "Aposto que...". Duas palavras foram o suficiente para que os olhos de Iuri ganhassem uma nova cor, um raio de vida no meio da amorfidade da íris ocular. Iuri pensava ser capaz de resistir. Mas o prémio prometido deitou abaixo as muralhas tão solidamente erguidas na Constatinopla da mente açoreana deste jovem: duas garrafas de absinto em troca de 101 dias de afastamento do Cubo. João vencia e apoderava-se desse artefacto do mal, exorcizando-o da sala 118 para todo o sempre. Mas o Cubo é uma entidade misteriosa e a sua total destruição pode ser apenas a fachada do aparecimento de um novo e terrível inimigo para João, afinal não apenas um inseguro e nervoso portador da sandes, mas antes um astuto e perspicaz dominador de mentes, um mestre do orgulho...
Mas será que esta vantagem se tornará em breve a sua decadência? Pois o amor entre um humano e um esquilo é um acontecimento que extravasa largamente o espectro de normalidade mesmo no ambiente idílico da sala 118. E este sentimento afectou a mente calculista e fria de João, criando uma nova personagem, nascidas à dois posts atrás, a quem chamaremos de JoÃo, o subconsciente emotivo e apaixonado, mas muitas vezes irracional, o alter-ego d'Aquele que venceu o Cubo. JoÃo é o problema, pois de modo a poder sentir o calor frio da pelugem inorgânica do mamífero plastificado por quem se encontra perdidamente apaixonado vendeu a sua honra e o seu orgulho, para tentar quebrar o orgulho da única barreira entre ele e a felicidade: Mondim. Desde esta mudança de atitude JoÃo já fez João perder uma tarte de amêndoa e encontra-se em vias de obrigá-lo a cometer um pecado imperdoável, o oitavo pecado mortal, a criação de um perfil no Orkut, coisa do outro lado do Atlântico, maior pesadelo que o Cubo, o pior dos tormentos para João cujo domínio sobre o seu alter-ego foi completamente destruído em escassos dias. Resta-lhe sonhar com esses deliciosos nacos de frango embebidos em molho picante ou com o maior prémio de todos, aquilo que o coração do seu alter-ego mais deseja, a única esperança que ainda possui de recuperar o controlo do seu corpo, vencer a aposta pela mão de Simon em casamento, custe isso o que custar.
Pois João sabe que JoÃo não pode ser deixado em liberdade. No dia em que o esquilo que ele tanto desejou o abandone, JoÃo não aguentará a dor, ainda mais intensa, por incrível que pareça que a agonia de ver a honra esfaqueada ou o lancinante rasgamento anal já referido pormenorizamente no início desta crónica. Seria o fim da vida corporal de João, resultado da reacção emocional de um coração estilhaçado. E João não o pode permitir. Ainda há trabalho a fazer neste mundo, antes do seu espírito viver para toda a eternidade na sala 118, dando explicações em sonhos a todos os seus futuros habitantes, desejando secretamente aquilo que hoje em dia é o seu maior e mais negro segredo, qual ele é, ninguém sabe, só João... Só falta esperar que ele algum dia descubra este blog e decida partilhar connosco este segredo, ou morreremos sem saber, afinal, quem é realmente este João...
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
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