Nem só da sala vivem os seus habitantes. Por muito que esse seja o seu sonho, a subsistência sedentária por autotrofia é um mecanismo ainda aquém das possibilidades dos heróis destas narrativas. Limitados pela organo-heterotrofia típica da sua espécie, a migração sazonal diária entre a sala 118 e a cantina tornou-se um ritual quase instintivo, intrínseco à condição de habitante deste místico local.
A cantina. Um centro de promiscuidade alimentar e quebra de regulamentos da ASAE. O núcleo da antipatia do corpo dos funcionários públicos. E acima de tudo, um local de profanidade, especialmente ao nível da confecção dos alimentos, uma tarefa que só pode ser completada vendendo a alma ao diabo em troca da capacidade inumana de criação de tão complexas e nutritivas refeições. É claro que estes factos escapam ao leigo olhar do típico observador. Apenas os mais sensíveis aos caminhos do Belzebu são capazes desse feito: identificar e exorcizar estes alimentos do demónio.
Hoje foi um dia como todos os outros, com a típica migração. Mas hoje foi diferente, pois esse poder sobrenatural da distinção da peste que inunda os alimentos da cantina, inundou cinco das nossas personagens, duas delas já vossas conhecidas: Iuri, o avatar do engenho e João o nervoso e inseguro portador da sandes. Chegou pois a altura de vos apresentar as Anas, nomes iguais mas também igualmente aleatórios e fictícios, sendo que a sua equalidade é apenas resultado de um erro na teoria do caos, criando uma coincidência única e irrepetível. Nunca mais existirá uma Ana como personagem nestas crónicas. Nunca. Até agora. A 5ª personagem é também uma Ana, curioso, facto que leva à necessidade da sua distinção. Utilizando as funções de randomize do MATLAB [pista para os mais curiosos descobrirem a nossa identidade] e uma conversão código ASCII para caracteres cada uma das Anas foi associada a uma letra. Assim temos Ana P jovem entusiasta, viciada em citrinos falantes e animais mitológicos alados e cuspidores de fogo, Ana M, boneca da Matel animada de vida própria, viciada em outras jovens que possuem sonhos molhados e em quizes impossíveis. A última, acaso dos acasos é também Ana M, infelizmente para o processador e para a memória do meu PC, responsável pela randomização dos nomes, pelo que serei eu a escolher o nome, sendo deste momento em diante Sofia M.
Sofia M, Ana M, Ana P, João e Iuri, cinco honráveis guerreiros, defensores da gastronomia típica da cantina, até ao momento em que o seu olhar se cruzou com os da habitualmente simpática funcionária pública, incumbida da árdua tarefa de servir os alimentos e assim propagar a peste diabólica por toda a comunidade da faculdade. A simpatia desvaneceu-se tão rápido como um protão acelerado num ciclotrão, na produção de radionuclídeos utilizados em medicina nuclear. O seu esgar de repulsa até então camuflado sob a fachada de ternura da jovem servidora de comida tornou-se subitamente visível aos olhos do quinteto, tal como o inomivável e indescritível aspecto dos alimentos por ela repulsivamente colocados nos decrépitos pratos de louça, tresandando a podridão.
Três refeições distintas foram servidos aos nossas jovens. E em cada uma delas um pecado esperando por se libertar e espalhar o seu poder pelas vizinhanças. Cuidadosamente cada um desembainhou os seus talheres começando uma cirúrgica e perfeccionista sutura da superfície dos anunciados "Rissóis de marisco", "Rissóis vegetarianos", e um terceiro alimento, cujo nome se perdeu no redemoinho do passado, vítima inevitável à cruel passagem do tempo, perdido num mar de reminiscências ao qual apenas os mais sábios poderão algum dia chegar [a não ser claro que algum de nós se levantasse e fosse à cantina ler a ementa, processo deveras moroso e nada apropriado à quantidade épica de trabalho que se nos avizinha no presente]. As vísceras destes desconhecidos alimentos revelaram o segredo que ninguém queria ver revelado: a amorfidade e monocromaticidade inundaram as retinas dos presentes, gerando impulsos eléctricos que geraram reacções de ódio e nojo. Por um momento os talheres recuaram.
Mas as necessidades energéticas são um flagelo da humanidade. Qual chicote em chamas o sistema nervoso entérico explodiu na mente dos personagens principais desta quasi-fábula [sim, todos estes individuos possuem características muitas vezes animalescas que serão exploradas com o tempo] e a heterotrofia levou a melhor. Pois contra a nossa própria vontade e a nossa natureza, nem o Simon possui poder.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
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