domingo, 7 de fevereiro de 2010

JC01 - The day the sandwich stood still

Quando no dia 25 de Abril de 1992 a ABC transmitiu o último episódio da série MacGyver, um mito tinha sido criado. Quando no dia 7 de Janeiro de 2010 o acontecimento agora narrado teve lugar, muitas questões foram levantadas, especialmente pelos adeptos da teoria da reincarnação. Será que o espírito engenhoso e muitas vezes god-like dessa personagem fictícia quebrou a etérea barreira que separa a ficção da realidade e encarnou no dia 1 de Julho de 1990 num recém-nascido na longínqua terra de Lagoa, Açores, Portugal???

Utilizaremos deste ponto em diante nomes fictícios para nos referirmos a todos os descendentes dos descobridores da sala 118. Nas próximas crónicas apresentaremos alguns dos indivíduos que habitam este local e cujos feitos ecoarão pela eternidade, começando por este representante do cariótipo XY [considerando-o humano, facto muitas vezes tomado como dogmático e que, como poderá ser avaliado pelos leitores, não é assim tão linear] e a sua incrível capacidade de criação de novos dispositivos que permitem à tribo nómada, cuja vida não se encontra centrada na sala 118, sonhar com o sedentarismo recorrendo somente às vending machines do corredor.

Apesar de não ter sido referido, não só a sala, como todo o ambiente envolvente da mesma, encontram-se imbuídos dum poder milenar. Num único corredor é possível sentir o aroma intensa de pizzas acabadas de confecionar, deixar-se maravilhar pela variedade de items gastronómicos fornecidos pelas máquinas de venda, enfurecer com a enorme probabilidade do café pedido não trazer colher, e sentir a aura de desprezo e ódio que emana da sala vizinha, a amaldiçoada sala 117 onde um ambiente de terror e tristeza impera.

É nesta área envolvente do éden da sala 118 que uma lenda foi criada. Quando um dos seguidores [daqui em diante chamado de João] decidiu fazer uma pausa na sua árdua tarefa de estudo, por volta das 8 da noite do dia 7 de Janeiro, para petiscar uma suculenta sandes de atum, mal poderia ele imaginar o inferno que estaria prestes a enfrentar. Colocando a bela moeda de um euro na perfeita ranhura e clicando nos números, assumidamente aleatórios, sucumbidos às maldições da modernidade, o espectador João quedou-se boquiaberto no momento em que as turbinas da máquina a fizeram rodar aplicando uma força vertical sobre a sandes e deixando-a numa posição horizontal sobre o mecanismo rotativo concebido para que a sandes caísse no orifício da recolha de alimentos. Um erro foi o suficiente para lançar o caos. O estômago de João gritou em agonia enquanto os seus olhos se esbugalhavam perante tal acontecimento, único na sua perfeição simétrica, apesar de agonizante.

Mas eis que, quando toda a esperança se encontrava perdida, uma luz emergiu da porta da sala 118 e, envolvido por este halo de boa-nova, Ele apareceu. O seu ar inofensivo esconde uma mente engenhosa e muitas vezes assustadora, apenas equiparada à elasticidade que possui nos seus membros. Referir-nos-emos dele deste ponto em diante como Iuri. Ele aproximou-se e ele viu... e ele se sentou observando, isolando-se no seu próprio mundo, ali, sentado e olhando. João ausentou-se, sem esperança no seu companheiro. Meia hora passou e quando João se preparava para morrer faminto Iuri emergiu erguendo numa das mãos a sandes e na outra uma engenhoca epicamente inovadora: três fios de cobre, normalmente utilizados na construção de circuitos eléctricos, enrolados em trança e na sua ponta um gancho confeccionado a partir de solda, utilizada vulgarmente no mesmo tipo de processos. Como ele as arranjou senão abandonou o seu local de observação, só Deus, o Darth Vader e o Simon sabem. Como ele retirou a sandes da sua prisão intemporal só os indíngenas da sala 117 afirmam saber. A verdade é que, por um momento, todas as características por vezes menos apelativas de Iuri dissiparam-se aos olhos de João, Diana e Lígia [duas das habitantes ficticiamente nomeadas da sala 118] que se quedaram em maravilha.

Naquele momento Iuri sorriu qual Richard Dean Anderson em qualquer uma 139 vezes que a abertura da série MacGyver inundou os televisores de milhões de americanos. Naquele momento Iuri era uma lenda.

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